domingo, 19 de janeiro de 2014

A Portadora de Rosas Vermelhas

Enquanto caminhava, olhava tudo ao redor e se incomodava com todo o barulho na cabeça e o silêncio no coração, não conseguia entender como todas aquelas pessoas no parque, sentadas com crianças, cachorro e família, falavam tão abertamente de sentimento, se tocavam e sorriam sinceramente e, ali, dentro do peito, um bolo surdo e oco, ocupava espaço de um órgão sem utilidade, entendia que o coração era nada além de um bombeador de sangue, sensação nada espirituosa pra uma tarde cheia de sol e sentimentos dos que passavam, um egoísmo que manchava a cena.
Quieta, tentava em vão tatear a grama, olhar o céu, puxar o ar, mas era tudo tão orgânico, que chorou, baixinho, aquele choro verde de inveja, escorreu o sal na boca, mas era sal, passava a língua e limpava tudo, uma lambida de pára brisa, nada por dizer ou fazer. Correu o dedo nos lábios, abriu a boca bem mansinho, de um jeito que só conseguia fazer quando estava ensimesmada, chegou nos dentes e lembrou de como seu sorriso era largo, uma expressão máxima da antítese de sua alma, ficou alguns instantes naquele movimento impiedoso, pra ver se doía ao menos, mas a dor também não queria aparecer, parou.
Em sua mão, pequena e tímida, tinha uma gota de sangue teimosa, imóvel, gorda e vermelha que a fazia lembrar que vivia, mas não sentia, olhou para o lado, ainda incomodada com a cabeça barulhenta e viu uma rosa, branca, sempre a rosa branca, nunca vermelha, andou até lá bem perto pra tocar, roubar pra si a beleza daquela solidão, a paz do silêncio, impressão injusta sobre a flor, queria sentir raiva, mas nem isso saia do peito, sentou e continuou olhando, a mente então voou.
Sem esforço, sem espasmos, olhou a flor, o parque em volta e não via ninguém, estava imersa em outro mundo, paralisada na lembrança do gozo, gozar com alguém, sensação nova e tão assustadora, inexplorada e cheia de culpa, uma culpa que também não sabia dizer de onde vinha, tremia e ria, desejava de novo aquele momento, como uma criança que quer bolo quente, vai queimar, passar mal, comia escondido, mas queria mais, parada por algum tempo pensou, pensou e viajou ainda mais em sua imaginação. Ganhava asas.
Suas asas tinham cor da noite, pegaram o caminho errado, a levaram pra um tempo que teimava em voltar, mesmo ela suplicando por esquecer, um tempo de mentiras, era um mar, as ondas vinham fortes, como no fim do dia, batiam em seu rosto, pra marcar, era hora de enfrentar, profanou o amor tantas vezes, usou essa palavra santa em vão, como se nada fosse, proferiu tantas vezes, pra tantas pessoas, que corou, corou em pensar na maneira vil e indelicada de entregar seu corpo, como uma mala, um alforje pesado e antigo, sem qualquer serventia, se não carregar mentiras, a mentira era um presente, vingança por não sentir, entendia que era uma maneira branca de provocar no outro, a mesma raiva que o vazio lhe causava.
Aquele momento foi tão longo e penoso, mas necessário, não dava mais pra fugir de si mesma, do que tinha causado ao longo do caminho, enquanto acreditava ser apenas vítima, talvez seus amores não tenham descoberto, mas nunca foram até seu peito, paravam na cabeça e ali viravam peças de um imenso e interminável Xadrez, um xadrez de uma rainha, sem reis, sua estranha mania de se vilanizar em público, mesmo sem a audiência entender, fazer o quê, era hora de continuar seguindo, parou, olhou para o lado e viu que a rosa ainda era branca. Quanta decepção.
Seu cérebro, aquela maquina louca, cheia de peças quebradas, era uma antena, recebia o recado e retransmitia a mensagem conforme a conveniência, trançava as letras em uma dança livre, alegre, sentimental, triste conforme a próxima peça do tabuleiro fosse jogar, no entanto, as ondas em vão tentavam sair da cabeça e chegar ao coração, que luta inglória, que expedição improdutiva.
De repente foi tomada por outra história, essa sim lhe metia medo, havia feito uma promessa, não mentiria nunca mais, esta sem dúvida havia sido sua pior jura. Lembrou que conheceu alguém, achou engraçado lembrar e não sentir, mas aceitou a lembrança, o peito doeu, dor, que dor era aquela?
A garganta seca, boca seca, mão gelada, branca como a rosa, desconcertada como quando gozou, imóvel, em vão, tentou se levantar, não tinha respostas ainda, tampouco movimento, permaneceu tentando entender o que era aquilo que estava ali, fazendo o coração disparar. Novamente uma lágrima. Era molhada, quente, pesada e suave na essência, caiu o peão, o bispo, a torre, a rainha em xeque, conseguiu apenas dizer antes de mais nada: carinho.
Seu primeiro sentimento, o carinho, por aquele cavaleiro, Dom Quixote, tão perdido quanto ela, em sua loucura ou ingenuidade a fez dizer a verdade: "Eu não sinto", aquela lembrança do que disse, a tomava de tal maneira que apertou a rosa, apertou com tanta força, tão cega e assustada que a gota gorda de sangue pintou a flor.
Nesse exato momento ela voltou os olhos para a realidade, viu as pessoas no parque, sua mente calou, olhou a rosa com carinho e disse com o coração quase gritando: "Finalmente a rosa vermelha, sou a portadora da rosa vermelha!"
Se levantou devagar, faltava o ar ainda, se levantou sacudiu a roupa e sentiu, que na vida carinho valia mais que amor, essa palavra já estava gasta por demais, velha por demais, enquanto que a outra, essa fazia sentido, fazia sentimento, essa ocupou o primeiro lugar em seu coração, o lugar que nenhuma outra palavra antes se atreveu.
Sentir era lindo, era quente e macio, sorriu, o sol iluminou a rosa e a portadora de rosas vermelhas, assim ela se despediu do parque, assim ela começou a viver. 






sexta-feira, 21 de junho de 2013

Em tempos de reflexão...


Me lembro há uns anos quando fui até o Paço Municipal levar um documento e subi no elevador com um cara que levava uma fatura pra protocolar, ele consertava cadeiras e, qual não foi minha surpresa em saber que uma reles cadeira com rodinhas custava mais de mil reais para ser reparada.
Anos depois trabalhando no mercado publicitário, novamente me assustei em ver o preço de uma campanha para o governo, em média sessenta por cento mais cara que uma campanha para o mercado privado.
Tudo isso me veio em mente quando uma pessoa que trabalha comigo tentava me convencer de não ir a manifestação e, hoje após o ato manifesto, veio me falar que foi uma micareta, não valeu a pena e não chegaremos a lugar nenhum com isto, a solução para ele concentra-se no voto.
Partindo da premissa de nossas diferenças, basicamente atendo-se ao assunto, não existiriam tantos partidos e tantas pessoas votando se não acreditassem em cada um deles, ou seja, como saber quem está certo ou errado quando o assunto é tão subjetivo?
Em outro viés, como esperar unidade em um protesto, onde basicamente concentram-se milhares de diferenças, baseadas apenas no cansaço da situação atual?
Respondo: Não há consenso, nossa corrupção é arraigada sobre cada pessoa, em maior ou menor grau, agências subsistem de campanhas superfaturadas, obras exorbitantes, cadeiras milionárias, pessoas que lucram com o dinheiro da população e que não se coçam pra mudar, ao contrário meu caro, aceitam e sorriem, com o saldo positivo de um projeto cheio de interesse.
Saindo rapidamente do cenário, olhando para o ser humano, dou um exemplo do almoço na empresa, hoje cozinhamos para doze pessoas, fritamos banana a rodo, para sobrar e comermos com açucar e canela, o resultado: cada um correu para garantir a maior parte, uns ficaram sem e aqueles que pegaram mais, não se mexeram para dividir, eu fui mais esperto, logo, tenho por direito a maior parte.
É visceral o interesse, o lucro, o ganha ganha no mercado, ou fora dele, o processo do "ao mais esperto a melhor parte" é nossa colonização, ou nossa educação, mas ele existe e coexistimos no sistema juntos disto.
Culpamos a política, por um comportamento social, mudar o Brasil, significa mudar o brasileiro, nosso cenário revolucionário é permeado de um pensamento basico de falta de auto crítica, adaptamos a ética ao nosso favor vinte e quatro horas por dia, respiramos o famoso jeitinho, culpamos os favores feitos e pedimos favores.
Acredito sim, que existem medidas imediatas para estancar a corrupção, mas defendo com garra que a tomada de consciência é a única maneira para superar de vez o processo corrosivo que experienciamos a todo momento.
Nosso cansaço extrapola a política, no entanto, pouco nos furtamos de provocar no outro, aquilo que nos incomoda em grande escala, que é o desrespeito, o egoísmo e a intolerância.
Esse chão verde e amarelo, tem vivido a era da misantropia, sem perceber que cada um tem feito sua parte como formigas, para que esse sentimento se enriqueça, a corrupção é em excesso, mas falta moral individual para que se possa olhar o outro de forma complacente e respeitosa.
Neste momento cautela é imperiosa, auto análise também, infelizmente não mudaremos uma nação, sem antes mudar primeiro os beneficiários dela.


sábado, 15 de junho de 2013

Mostra sua cara

As vezes acho nosso anti nacionalismo um tanto quanto exagerado.
Gostamos do Pais, não gostamos dos governentes, mas pouco fazemos para mudar as escolhas.
Depois de um tempo passamos a queimar la fora e aqui dentro nossa própria imagem. 
Qual o sentido portanto desse ciclo vicioso?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Um conceito

Outro dia vi uma foto de uma menina com síndrome de down, um negro e um gordo lado a lado no facebook e na legenda dizia: "Se você não tem preconceito, compartilhe."
Sempre tive um conceito talvez um pouco avesso dos demais em relação a isso, penso que quando falamos em preconceito é aquilo que não gostamos, mesmo sem conhecer a fundo, aquela velha história do "pré-conceito", algo meio burro em minha opinião, mas que existe desde que o mundo é mundo e não vai mudar.
O fato de não mudar, me leva novamente aquela opinião pessoal de que existem dois grupos, os que concordam e os que discordam, os que são contra neste caso, agem exatamente com preconceito do preconceito, me explico.
Se existem pessoas diferentes, aliás é só isso que existe, diferenças, elas estão ai para serem parcimoniosamente aceitas, portanto, se não existe preconceito em você, basta apenas olhar tal foto e não enxergar diferença alguma, simples assim, seria então apenas mais uma foto, como de uma flor bonita, um por do sol, um casal homossexual ou as sete maravilhas do mundo.
A necessidade do ser humano de se encaixar e se posicionar em relação a tudo é extremamente cansativa, o que os move, uma infinidade de razões que não cabem ser relacionadas, até porque desconheço cada passo que impulsiona o indivíduo, mas sei bem o que não leva a canto algum.
Uma foto como esta, poderia chocar os preconceituosos, mas aos livre deste mal, deveria ser um clique, nada mais, sem necessidade de explicação ou qualquer coisa que o valha, mas a tal humanidade, tem que meter um "bedelinho" em tudo.
A sensação que tenho ao ver milhões de compartilhamentos, é o quanto ainda estamos longe de virtudes, como diria Sêneca em Da Tranquilidade da alma: "Tal como medicamentos que, embora não sejam ingeridos ou tocados, agem pelo odor, assim também é a virtude, que difunde sua utilidade à distância e de modo oculto".
Sinceramente ainda não há como fugir de nós mesmos, quem já leu Kafka em o artista da fome, sabe bem o que estou falando, a diferença oprime, incita nossa sede por algo fora do padrão, quando na verdade, é tão somente apenas mais um que poderia facilmente enxergar com a mesma surpresa a sua pretensa normalidade.
Sempre que reflito em algo assim, revive em mim a esperança de que o ser humano entenda que a guerra se faz ai, quando um simples e sincero aperto de mãos resolveria tudo, bastaria apenas colocar o ego de lado e seguir, sempre com a máxima auto crítica, ele é negro, ou gordo ou um bebê com down e você pra ele pode ser feio, burro, arrogante, nem por isso ele postou sua foto pra alguém curtir e compartilhar.
Aceitar os fatos e contribuir de forma positiva para uma evolução, uma foto compartilhada sem um raciocínio não muda os fatos, apenas engrossa o caldo de um mar de gente que ainda pensa pequeno e não sai do lugar, estamos na era da informação e alguns ainda esperam a caça às bruxas, seja pra queimar os diferentes, ou pra queimar aqueles que não aceitam a diferença.
Convergência meus amigos, essa é a tendência, aceitem e estreitem os laços das relações humanas.